Em Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, o sofrimento reconhecido e provocador

😊😍💗 “O sofrer vinha das coisas que nem sempre davam certo, me fazia sentir viva e unida, de alguma forma, a todos os trabalhadores que padeciam dos mesmos desfavorecimentos”. 

Em Torto Arado, belíssimo romance de Itamar Vieira Júnior,  a personagem Belonísia, então narradora da história, caminha assim, em suas reflexões, para a consciência de quem era: pertencia àquelas terras de Água Negra, compartilhava as crenças, o sofrimento  e a labuta com todos que ali tinham morada, eram quilombolas que protegiam aquelas matas e águas, que delas tiravam o sustento e as transformavam  em alimentos e lucros para os que se diziam donos.  E nem mesmo chamavam a si quilombolas, isso ela estava aprendendo agora.

Nesse caminhar crescente de consciência lá no fundo de si, sem a voz como expressão,  Belonísia  mostrava sua garra e força de outras tantas formas e semeava resistência como semeava alimento na terra, cotidianamente, com a enxada e as mãos. Dos encantados, entidades que seu pai Zeca do Chapéu Grande, curandeiro e líder das cerimônias religiosas de Jarê, ensinou a crer e respeitar, vinham histórias, esperanças, ensinamentos. 

“Sofrer, esse sentimento difícil de exprimir e rejeitado por todos, mas que a unia de forma irremediável a todo seu povo. O sofrimento era o sangue oculto a correr nas veias de Água Negra “– e quem narra agora é a encantada Santa Rita Pescadeira e não mais Belonísia.  Espírito que vagava  por este mundo e por vezes penetrava nas pessoas, Santa Rita Pesacadeira conhece a história do passado e do presente, os pensamentos e emoções das personagens e assim torna-se uma  narradora “onisciente”, que como ninguém, sabe do sofrimento do seu povo.

Em “Reinvenção da Intimidade. Políticas do sofrimento cotidiano”, o psicanalista Christian Dunker, avisa-nos que “novas formas de viver trazem consigo novas formas de sofrer, assim como novas formas de vida projetam novos ideais de felicidade”. O sofrimento é também uma identidade.  Ele se distingue em cada contexto, época, forma de viver e visão de mundo. 

Dunker nos aponta três características do sofrimento.  Ele é transitivista, o agente e o paciente da ação se indeterminam mutuamente. É causa e sintoma. Então, vemos que se Belonísia sofria por ver seu pai na labuta ser explorado ou por ver Maria Cabocla apanhar do marido; o pai também sofria por ver Belonísia encontrá-lo naquela situação e Maria Cabocla sofria, quem sabe, por não ter a coragem de Belonísia. 

Mas o sofrimento tem uma segunda característica essencial:  ele depende de relações de reconhecimento. O  sofrimento reconhecido, seja por quem nos cerca, seja pelo Estado, é diferente do sofrimento não reconhecido, sobre o qual paira o silêncio, a invisibilidade ou a indiferença, ensina-nos o psicanalista. Alguns sofrimentos são “aceitos” como tal, outros não.

E finalmente,  o sofrimento se estrutura como uma narrativa. Ao contrário da dor, que é sempre igual, o sofrimento se exprime em “séries transformativas”.  A experiência do sofrimento envolve a transferência ou a partilha de um saber sobre suas razões.  Podemos ver que as três características pontuadas por Dunker se imbricam, tudo junto e misturado, no sentimento de sofrer se então ele é reconhecido como sofrimento, levado à consciência e à decisão de transformá-lo. 

Voltamos à Água Negra.  Belonísia e a irmã Bibiana, as duas filhas de Zeca unidas quase como siamesas quando crianças, tomaram rumos diferentes, mas se reencontraram no sofrimento.  Bibiana escolheu deixar a terra e buscar outros trabalhos e aprendizados que lhe explicassem a existência e apontassem futuro. Voltou à Água Negra professora e mãe, viveu outras vidas ao lado do companheiro sindicalista, aprendeu a reconhecer e nomear o sofrimento coletivo, assim como o que ia na sua alma.  Belonísia permaneceu fincada à terra, sem a língua que perdeu no acidente de criança e cerrou sua voz e seu canto para sempre, mas também se descobriu e ao seu povo, depois de perder a voz emprestada de Bibiana, com a coragem que trazia no sangue.  Nos sons do vento, dos animais, das folhas, do rio, que vibraram sempre em seu interior, descobriu “que o som do mundo havia sido a sua voz”.

Torto Arado leva-nos à alma do povo quilombola. Para valorizá-los, respeitá-los,  e não para ter compaixão. Reconhecer o sofrimento, torná-lo “aceito”, é um ato político e ético. Como tal, deve ser transformador.

 

VIEIRA JÚNIOR, ITAMAR – “Torto Arado”.

DUNKER, CHRISTIAN - “Reinvenção da Intimidade. Políticas do sofrimento cotidiano”.

 


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